terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Com a palavra... CAMPOS DE CARVALHO

Campos de Carvalho
“Nasci clown e morrerei clown, embora a vida toda tenha sido um mero funcionário público. (Todos os funcionários públicos são meros, quando deveriam ser melros). Sou eternamente grato a um crítico que certa vez me chamou de clown (nem a minha própria mãe me chamou assim) — como sou grato aos que me chamaram de palhaço com segundas intenções ou mesmo com terceiras. Antes de morrer ainda hei de armar o meu pavilhão auricular, isto é, dourado, em todas as praças do mundo e dele partir como um bólido rumo a todas as constelações, pregando a hilaridade e a língua de fora à boa maneira de Einstein e dos enforcados: ASSIM!”

- Campos de Carvalho (1916-1998) foi um dos escritores brasileiros de obra mais singular. Considerado um dos poucos exemplos de literatura surrealista no Brasil, sua obra resumiu-se a cinco romances lançados nas década de 1960 e que por longos anos cairam no ostracismo. Apenas trinta anos depois seus livros ganharam uma reedição. Seu romance mais famoso é "A Lua Vem da Ásia", de 1956.  

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Meu livro preferido é... SÍTIO DO PICAPAU AMARELO


“Quando eu era criança, devorava os livros de Monteiro Lobato. Lia e relia com prazer. Hoje, quando me vejo lendo de novo os velhos livros de Lobato, sinto que o envolvimento é o mesmo. Volto no tempo com o mesmo prazer”.

- Maurício de Souza é o mais bem sucedido cartunista do Brasil. Criador da Turma da Mônica, seu nome é hoje associado a um sem-número de empreendimentos voltados para as crianças e seus quadrinhos circulam por mais de cem países

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Com a palavra... JAMES WELDON JOHNSON

James Weldon Johnson
"A medida final da grandeza de todas as nações é a quantidade e qualidade da literatura que elas produziram. O mundo não reconhece que um povo é grande até que esse povo produza literatura e arte grandiosas."

- James Weldon Johnson (1871-1938) foi um dos mais importantes escritores do movimento chamado Harlem Renaissance, que colocou em evidência, nos anos 1920, nos EUA, a produção artística de escritores, músicos e artistas afro-americanos. Johnson foi diplomata, professor, folclorista, escritor e poeta, sendo dele a letra de Lift Up Your Voices and Sing, considerado o Hino Afro-Americano. Profundo estudioso da questão do negro em seu país, escreveu um único romance, o emblemático Autobiografia de um Ex-Negro, será tema do Clube de Leitores da Sapere Aude! Livros no dia 13 de novembro, às 19h30.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

7ª edição do clube de leitores da Sapere Aude! Livros

7ª edição do clube de leitores da Sapere Aude! Livros

Autobiografia de um ex-negro - James Weldon Johnson

"Uma leitura que levanta reflexões ainda hoje, onde os negros, ou qualquer outra etnia, credo ou raça, ainda são tratados com desrespeito e inferioridade. Leitores preocupados ou não com questões ligadas à oportunidades e preconceitos vão encontrar um história reveladora sobre uma sociedade que ainda hoje cultiva costumes e pensamentos atrasados". (Resenha de "Autobiografia de um Ex-Negro" (Editora 8INVERSO), por Taize Odelli _ http://goo.gl/76QjCX)
"AUTOBIOGRAFIA DE UM EX-NEGRO", escrito por James Weldon Johnson e traduzido por Robertson Frizero, será tema da 7ª edição do CLUBE DE LEITORES da Sapere Aude! Livros que, no mês de novembro, fará parte da programação da "FEIRA ALÉM DA FEIRA 2013", apoiada pela livraria.

O evento ocorre no próximo dia 13 de novembro, quarta-feira, a partir das 19h30min. As inscrições são gratuitas e devem ser feitas através do e-mail info@sapereaudelivros.com.br

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Com a palavra... JONATHAN FRANZEN

Jonathan Franzen
"Leia as primeiras cinco páginas. Conte o número de clichês. Se encontrar um, a sirene deve soar: não se trata de um romance sério. Um romancista sério percebe os clichês e os elimina. O romancista sério não escreve 'chave de ouro' ou pinta o mundo com clichês de termos morais. Você praticamente pode substituir o adjetivo 'livre de clichês' por ' sério' em literatura."

- Jonathan Franzen é um dos mais aclamados romancistas e ensaístas estadunidenses da atualidade. Seu romance "As Correções" - tema do encontro do Clube de Leitores da Sapere Aude! Livros do dia 30 de outubro de 2013 - foi premiado com o National Book Award e finalista do prêmio Pulitzer

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Fridolin e a realidade dos sonhos

Arthur Schnitzler
Um dos mais profícuos autores e dramaturgos da primeira metade do século XX, Arthur Schnitzler (1862-1931) passaria muitas décadas ofuscado pela obra de outros autores austríacos e alemães contemporâneos seus, não pela qualidade de seus escritos mas, sobretudo, pelas controvérsias em torno do teor de seus escritos, tanto em suas peças teatrais quanto em seus textos em prosa. 

Se hoje a obra de Schnitzler vive um merecido renascimento, muito se deve à novela literária Breve Romance de Sonho (1921), resgatada pelo cinema na adaptação modernizada do texto feita por Stanley Kubrick em seu De Olhos Bem Fechados (1998), canto do cisne do cineasta norte-americano estrelado por astros como Tom Cruise e Nicole Kidman. O breve texto de Schnitzler, no entanto, carrega quase todos os méritos pelo sucesso do filme - nele estão presentes praticamente todos os elementos de escândalo que levaram multidões aos cinemas -, acrescidos daqueles que talvez sejam os grandes talentos de Schnitzler: escrever em uma prosa límpida e envolvente, bem como contar uma história que absolutamente torne impossível ao leitor abandonar a narrativa antes do desenlace final.

Em Breve Romance de Sonho, somos apresentados nas primeiras páginas do livro ao casal Fridolin e Albertine em uma cândida cena familiar na qual contam uma história das Mil e Uma Noites para a pequena filha; médico em início de carreira, Fridolin mantém com Albertine um matrimônio harmônico, exemplar, que será rompido pela conversa que terão sobre o baile da noite anterior. As provocações entre os cônjuges sobre flertes e olhares com outros convivas leva a uma conversa mais tensa sobre fantasias do passado, e Albertine acaba por confessar a Fridolin que trocara olhares com um homem hospedado no mesmo hotel que eles no verão passado; incomodado com a revelação, Fridolin também conta ter se sentido atraído por uma jovem nadadora. A conversa leva-os à promessa de que, a partir de então, irão contar um ao outro sobre desejos desse tipo que surjam à mente. A esposa, sorrindo, conta-lhe então que teria se entregado a ele antes do casamento, de tão apaixonada que estava por ele. Fridolin, estranhamente, entende que isso seria um sinal de que Albertine poderia ter se deixado levar por qualquer homem e sai de casa, aflito, para atender um paciente moribundo.

O que se sucede nessa breve novela a partir desse primeiro capítulo é um genial emaranhado de situações nas quais Schnitzler vai expor a natureza contraditória dos desejos do homem ferido em seus brios masculinos. Fridolin age movido pelo desejo, um sentimento que mistura a vontade de trair a esposa por vingança e o impulso de se lançar em aventuras nunca vividas. Tudo isso é precipitado por uma declaração de amor inesperada vinda de Marianne, a filha do paciente que vai visitar e que já encontra morto em seu leito. Fridolin sai daquela casa e começa a vagar por Viena, cruzando em seu caminho com prostitutas, pedófilos e, por fim, uma orgia secreta de mascarados da qual é expulso e ameaçado de morte, sendo salvo por uma das convivas que dele se apieda.

Mas nada em Schnitzler é fácil de definir. A novela caminha por uma eterna penumbra, e não são raras as metáforas que o autor austríaco faz com a luz e a sombra. Quase todas as cenas em que Fridolin depara-se com seus desejos sexuais reprimidos acontecem no escuro, desde a revelação do amor de Marianne, prometida em casamento a um médico mais bem sucedido que Fridolin, à dança orgíaca entre monges mascarados e freiras nuas de rosto coberto por véus negros. Excitado por todos os acontecimentos da noite, Fridolin é surpreendido com o sonho que lhe conta Albertine, muito mais rico em transgressões que as pequenas aventuras que ele vivera. No dia seguinte, à luz do dia, Fridolin tentará refazer o mesmo caminho de sonho da noite anterior, com surpreendentes revezes. Ao retornar para casa, Fridolin encontrará Albertine adormecida; no seu lado da cama do casal, a máscara que usara na noite anterior e tentara esconder da esposa.
Alice aguarda o esposo dormindo ao lado de sua máscara:
Nicole Kidman em cena de "De olhos bem fechados"

Sigmund Freud, contemporâneo de Schnitzler, dizia ter medo de conhecer pessoalmente o escritor, por considerá-lo seu duplo - em carta, disse que tinha "a impressão de que [Schnitzler] aprendera pela intuição — em verdade, o resultado de sua altamente sensível introspecção — tudo o que [ele, Freud] teve que aprender pelo trabalho laborioso de observação e estudo de diversos casos de seus pacientes". Escrito em uma linguagem objetiva e, ao mesmo tempo, nebulosa, abrindo caminho para diversas interpretações, a novela de Schnitzler é tão memorável que Kubrick não teve pudores de inserir em sua versão contemporânea da história todas as situações do livro e alguns diálogos em sua integralidade. Breve Romance de Sonho leva o leitor a acompanhar as sensações e frustrações de Fridolin em sua busca  — primeiro, de uma tola vingança real ao que fora apenas um desejo jamais realizado pela esposa; depois, de respostas no universo subterrâneo que sua noite de sonho desperto o leva a conhecer. Como os tantos outros seres que vai encontrar em sua breve jornada, Fridolin também carrega uma máscara que lhe dá a sensação de liberdade diante dos ditames do mundo, mas que se mostra igualmente uma prisão da qual pode ser difícil se libertar. Entre sonho e realidade, Fridolin e Albertine precisarão decidir se seguem a valsa da vida social ou deixam para trás o baile de máscaras.

 *Texto de Robertson Frizero - escritor, professor de Criação Literária e Mestre em Letras pela PUCRS.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Com a palavra... ALICE MUNRO

Alice Munro
"Quando se vive em uma cidade pequena, você ouve mais coisas, sobre todo o tipo de gente. Em uma cidade grande você praticamente só ouve histórias sobre as pessoas como você. Se você é uma mulher, sempre acaba sabendo muito de suas amigas. Meu conto Differently veio da minha vida em Victoria, e também muito do conto White Dump. Eu busquei a história de Fits de um incidente real e terrível que aconteceu aqui - o assassinato seguido de suicídio de um casal sexagenário. Na cidade grande, eu teria notícias disso apenas pelos jornais, não teria tido acesso a toda a trama subliminar do ocorrido."

- Alice Munro, celebrada contista canadense, foi a vencedora do Prêmio Nobel de Literatura. Ela vive em Clinton, província de Ontario, uma cidade de pouco mais de três mil habitantes. Munro ficou famosa como colaboradora de revistas como a New Yorker, onde boa parte de seus contos foi publicada.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Meu livro preferido é... CEM ANOS DE SOLIDÃO, de Gabriel Garcia Marquez



“O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo.” (de "Cem Anos de Solidão")

MARQUEZ, Gabriel Garcia.
CEM ANOS DE SOLIDÃO.
(Nova Fronteira)
"Na primeira vez que li Cem anos de Solidão, há muito tempo, o que mais me apaixonou foi a perfeita mistura de fantasia com realidade. A história se passa em Macondo, uma cidade imaginária. Todos os habitantes são estranhos, cada um com uma personalidade. Uma família se destaca, e seus integrantes são muito especiais. A própria casa onde moram parece ter vida, e adquire características próprias a cada capítulo.
Fiquei encantada, pensando que Gabriel Garcia Márquez era uma pessoa especialíssima, que conseguia ter aquela interpretação tão rica da realidade. Anos mais tarde, ao ler Viver para Contar, sua autobiografia, entendi que ele viveu tudo aquilo. Que sua infância e juventude foram povoadas por aquelas personalidades marcantes e tão diferentes. Ele simplesmente usou em todos os acontecimentos uma lente cor-de-rosa. Parecia como antigamente, quando surgiu a TV colorida, que na época era muito cara, e se colocava uma espécie de película listrada em várias cores, sobre a tela da TV. Tudo era visto com olhos coloridos.
Gabriel Garcia Marquez
É importante perceber que todas as famílias têm histórias cheias de fantasias, cheias de nuances. Algumas famílias têm histórias em sépia, outras em preto e branco, e outras com muitas cores. Em Cem Anos de Solidão as cores são quentes, chegam até a queimar. As misturas de temperos caribenhos fazem com que nossa imaginação veja claramente cada peça, cada personagem.
Gabriel Garcia Marquez consegue colocar poesia em tudo, até em uma definição detalhada de uma doença em muito semelhante ao Alzheimer, que revela uma nova forma nostálgica de encarar o envelhecimento e o esquecimento."
- Selene Fagundes é Relações Públicas por formação e vocação, professora talentosa, cronista bem humorada, leitora voraz e frequentadora de primeira hora da Sapere Aude! Livros, onde cursou a Oficina de Iniciação à Criação Literária.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Meu livro preferido é...DANCE OF THE HAPPY SHADES, de Alice Munro

"Sou péssima em escolher 'preferidos', então vou falar do meu primeiro encontro com as histórias de Alice Munro. Eu li sua primeira coletânea, Dance of the Happy Shades, em 1968, na congelante Edmonton, encarangada ao lado de um aquecedor a óleo. A história-título derrubou-me. 'Isso é a realidade', pensei. 'Nossa'. Depois incluí essa história em um curso que inventei chamado "O Gótico do Sul de Ontario". Duas velhas professoras de piano com olhos vermelhos e narizes de bruxas recebem crianças em seu chalé para um recital. MAs chega um grupo inesperado, do que se costumava chamar um 'instituto'. Uma menina toca divinamente: a 'Dance of the Happy Shades' havia transformado ela! Mas, não, na verdade logo adiante se vê que ela é a mesma criança sofrida de antes. Como em muitas das histórias de Munro, essa diz respeito aos encantamentos da arte: são reais ou mentirosos? Uma coisa e outra, ao que parece: a mágica está em como você faz. E assim o é. A mágica está em como ela faz isso. Você precisa ouvir." 

Margaret Atwood
- Margaret Atwood é uma das mais conhecidas escritoras canadenses. Romancista, contista, ensaísta e poetisa, já recebeu importantes prêmios por sua obra literária, dentre os quais a Ordem do Canadá. É autora de "O Conto da Aia", um dos mais aclamados romances distópicos do século XX, com o qual ganhou o Prêmio Arthur C. Clarke. Alice Munro, sua conterrânea, pela qual Atwood tem uma admiração declarada, foi agraciada com o Prêmio Nobel de Literatura de 2013.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

6ª EDIÇÃO CLUBE DE LEITORES

O livro, "As Correções", de Jonathan Franzen, será tema do próximo encontro do CLUBE DE LEITORES da Sapere Aude! Livros no dia 30 de outubro, quarta-feira, a partir das 19h30min. As inscrições são gratuitas e devem ser feitas através do e-mail info@sapereaudelivros.com.br.
 


SAIBA + SOBRE O LIVRO

As Correções", de Jonathan Franzen, narra a história dos conflitos religiosos, geracionais e de costumes de uma típica família americana na última década do século XX. Nos Estados Unidos dos anos 1990, nada escapa ...ao olhar agudo do autor: a instabilidade do mercado financeiro, as promessas de bem-estar dos novos antidepressivos, a moral religiosa da velha geração e a ausência de escrúpulos dos jovens americanos.
Para contar essa história em que todos procuram incessantemente corrigir os rumos que imprimiram às próprias vidas, o autor usa uma prosa ácida, que expressa o embate entre mundos inconciliáveis: o universo conservador dos pais e o pragmatismo sem horizonte dos filhos.

"Maravilhoso... Tudo o que se espera de um grande romance, exceto por um motivo: ele acaba." - The New York Times Book Review

"À altura de "Os Buddenbrooks", de Thomas Mann, e "Ruído branco", de Don DeLillo... Uma realização notável" - Michael Bill Cunningham
(Com informações da Companhia Das Letras)

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Meu livro preferido é... VINTE MIL LÉGUAS SUBMARINAS

"Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne, é um dos livros mais eletrizantes que já li. É divertido e prende o leitor do início ao fim."

- Tom Clancy, que faleceu aos sessenta e seus anos no último dia primeiro de outubro, é um dos escritores mais lidos nos EUA. Ficou célebre por popularizar o subgênero do "techno-thriller" - romances de intriga política misturada com detalhes sobre a moderna tecnologia militar. São dele títulos como "A Caçada ao Outubro Vermelho" (1984), "Jogos Patrióticos" (1988), "Perigo Real e Imediato" (1989) e "A Soma de Todos os Medos" (1991), todos transformados em filmes de sucesso. 

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Dom Casmurro: a força do Ciúme

por Fernanda Mellvee

Machado de Assis

        Talvez em nenhum outro livro da nossa literatura, o poder do narrador sobre o que está sendo dito fique tão evidente. Em Dom Casmurro, Machado de Assis demonstra toda a sua capacidade de prender o leitor com ideias, provas e contraprovas sobre o enredo que ainda hoje confunde o público.  É mais seguro admitirmos que Dom Casmurro se trate da história de um caso irreversível de ciúme em vez de comprarmos a sedutora ideia de que o romance retrate uma historia de traição.
        No primeiro capítulo, o narrador nos conta que o seu apelido, “Dom Casmurro” lhe foi dado em virtude de seu comportamento recluso e calado. O narrador explica que ganhou este apelido depois de cochilar enquanto ouvia os versos que um vizinho de bairro declamava para ele durante o curto trajeto do trem. O apelido logo foi conhecido e divulgado pelos vizinhos que também não concordavam com sua maneira calada e introspectiva. Em seguida, Bentinho, o narrador-protagonista do romance, revela que o apelido dado pelo “poeta do trem” servirá de título para o seu livro. No trecho seguinte encontramos um exemplo da ironia que é uma das marcas deste romance e que é uma das principais características de Machado de Assis.


“Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até o fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o titulo seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.”(Machado de Assis, 2008, p.7)


Primeira edição
      Além da famosa ironia de Machado, já citada anteriormente, neste trecho encontramos uma espécie de síntese do poder no narrador. Machado, através de Bentinho, nos sugere que é possível que o narrador extrapole os limites de seu relato, relegando ao autor, como neste caso, o papel de um mero instrumento que executa a tarefa de escrever. Quando Bentinho afirma que alguns livros só têm o título de seus autores e que há outros que nem isto possuem ele nos diz que a verdadeira virtude consiste em saber como narrar, não importa quem esteja narrando assim como não importa o que está sendo narrado.
      No segundo capítulo Bentinho revela os motivos pelos quais decidiu escrever este livro. Logo no primeiro paragrafo ele nos conta que vive só, com apenas um criado, que a casa é própria, e que foi construída à maneira da antiga construção da Rua de Matacavalos, seu antigo endereço. Este desejo de reproduzir o mesmo ambiente que lhe serviu de moradia, anos antes já é uma pista de que o proprietário gostaria de recuperar algo que está em outro tempo, neste caso um passado já distante.


“Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua dos Matacavalos, dando-lhes o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e sala.” (Machado de Assis, 2008, p.8)


       O trecho acima deixa bastante clara a intenção do protagonista em recriar a mesma residência em que vivera tempos atrás e com isto reviver um tempo que não é o presente. Podemos imaginar com isto que há algo no seu passado que ainda o perturba, algo que não ficou bem resolvido e que o presente não lhe satisfaz, e é daí que surge a necessidade de uma fuga para o passado.
"(...) O ciúme de Bentinho é a base
de todo o desenrolar da trama."
      Outro aspecto que é bastante interessante de ser analisado neste capítulo são as figuras que enfeitam os quatro cantos do teto, com seus respectivos nomes: César, Augusto, Nero e Massinissa. O próprio Bentinho nos diz não saber o motivo pelo qual estas figuras faziam parte da decoração da casa de Matacavalos, uma explicação provável seria que naquela época era uma tendência utilizar elementos da cultura clássica como parte da decoração.   Estas figuras, que já estavam presentes na casa da Rua de Matacavalos antes mesmo dela pertencer a Bentinho, talvez fossem mais do que simples adorno. Se pararmos para refletir sobre estes nomes, sobre estes soberanos, facilmente poderemos ligar a tirania e o poder absoluto que eles exerciam em vida ao poder absoluto e à tirania do proprietário da casa, neste caso, Bentinho, o narrador. Mais uma vez, Machado de Assis associa a figura do narrador ao domínio da situação, ao poder.
      Nos próximos capítulos o ciúme de Bentinho é a base de todo o desenrolar da trama. Machado, usando de toda a sua habilidade consegue fazer de uma suspeita uma certeza para muitos e até hoje Dom casmurro é lembrada por muitos como uma historia de adultério. No trecho a seguir veremos um exemplo de como o ciúme de Crescendo de maneira gradativa.


“Os braços merecem um período. Eram belos, e na primeira noite em que os levou nus a um baile, não crio que houvessem iguais na cidade (...) Eram os mais belos da noite. A ponto que me encheram de desvanecimento. Conversava mal com as outras pessoas, só para vê-los, por mais que eles se entrelaçassem aos das casacas alheias. Já não foi assim no segundo baile; nesse quando vi que os homens não se fartavam de olhar para eles, de os buscar, quase de os pedir e que roçavam por eles mangas pretas, fiquei vexado, aborrecido. Ao terceiro baile não fui, e aqui tive o apoio de Escobar, a quem confiei candidamente os meus tédios, concordou logo comigo.” .”(Machado de Assis, 2008, p.137)


      Como verificamos no excerto acima, a beleza da esposa, representada pelos braços nus no baile em principio envaidecia Bentinho, em um segundo momento passou a perturbá-lo e o deixar inseguro. No terceiro baile esta insegurança foi tamanha que o impediu de comparecer na festa. Podemos ver que em pouco tempo, ainda no início do casamento, no momento do auge de felicidade conjugal, o ciúme do marido já estava prejudicando as relações sociais do casal. Escobar que ainda está sendo considerado um amigo e confidente do nosso narrador não foi poupado de sua desconfiança como iremos verificar mais adiante.
Uma das mais célebres expressões do livro
     O casal Escobar e Sancha, que eram amigos tão próximos de Capitu que chegaram a batizar a primeira filha com o nome da madrinha e chamavam a menina “Capituzinha”, tiveram este gesto retribuído com o nascimento do primeiro filho de Bentinho e Capitu, um menino a quem chamaram Ezequiel, o prenome de Escobar. O menino, lá pelos cinco ou seis anos já demonstrava certa habilidade em imitar os conhecidos, foi algumas vezes repreendido pelos pais, mas tinha a imitação por hábito. Bentinho afirma que o filho imitava o amigo Escobar com tanta perfeição que conseguia imitar até os seus olhos.          Esta inocente brincadeira de criança também foi motivo de desconfiança para Bentinho, que futuramente iria desconfiar que Ezequiel era na verdade filho de Escobar.
      O momento que foi o ápice da suspeitas do marido enciumado foi na ocasião do enterro do amigo. Escobar que certa manhã ao nadar em um mar agitado afogou-se. Durante o enterro de Escobar, Bentinho teve quase certeza do adultério, baseado em “provas” nada concretas. O trecho seguinte se refere a este momento:


“No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver, tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não lhe admira lhe saltassem algumas lagrimas poucas e caladas. (...) Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã.” (Machado de Assis, 2008, p.157).


 
Na tradução para o francês,
ao título do livro foram acrescidos
os "olhos de ressaca" de Capitu
 
  O trecho acima nos mostra claramente como o simples ato de olhar para alguém, mesmo que este alguém esteja morto, é o suficiente para despertar a desconfiança de quem está sugestionado pelo ciúme. Mesmo que Capitu não demonstrasse nenhuma ação, nenhum gesto que a comprometesse, os olhos dela faziam que Bentinho suspeitasse da esposa e do amigo. Quando Bentinho compara o olhar da esposa ao da viúva, nos leva a pensar que havia algo em comum a esta duas mulheres, estarão as duas sofrendo por amor pelo mesmo homem? A comparação entre os olhares de ambas é algo muito eficaz, é possível visualizar a cena, é muito fácil suspeitar de alguém em uma situação como esta, apesar de ser uma situação em que não há nada de suspeito. É uma evidencia nada objetiva. É uma visão bastante subjetiva e que foi facilmente adotada por muitos leitores durante muito tempo. O adultério em Dom casmurro foi uma certeza praticamente até o ano de 1960, quando Helen Caldwell publicou o livro O Otelo brasileiro de Machado de Assis. Em seu estudo que se tornou um importante instrumento na compreensão desta obra, Helen desmistificou o adultério de Capitu e Escobar. O trecho seguinte foi extraído do livro de Helen e fala justamente da temática do ciúme, uma constante da obra Machadiana:


“O ciúme nunca deixou de fascinar Machado de Assis. Em suas obras, seja em artigos ou na ficção, ele frequentemente faz pausas para manipular um lento bisturi sobre uma nova manifestação de ciúme. (...) É ele mesmo quem revela que se trata da historia de Otelo, mas com certa diferença, sua Desdêmona é culpada. “ (Helen Caldwell, P. 18; 21)


       No excerto acima, retirado do livro de Helen Caldwell, temos a chave para compreender que esta história não se trata de uma história sobre o adultério, mas sim de uma história em que o ciúme ganha tanta importância que quase se transforma em um personagem, o protagonista. Podemos dizer que Bentinho personifica o ciúme e toda a sua vida foi afetada por este sentimento. Machado de Assis, usando toda a sua genialidade, conseguiu criar um enigma que levou mais de um século para ser desvendado e seu narrador foi a peça principal para que isto fosse possível.


*Texto de Fernanda Mellvee, graduanda em Letras - Português, Inglês e Respectivas Literaturas - pela UFRGS. Escritora e poetisa, integra a Oficina de Iniciação à Criação Literária da Sapere Aude! Livros desde março de 2013. Seus principais interesses são a História, a Mitologia e a Literatura.

Referências:

ASSIS, Machado de/ Dom Casmurro- 2ª ed.-São Paulo: Ciranda Cultural, 2008.

CALDWELL, Helen/ O Otelo brasileiro de Machado de Assis- Ateliê Editorial, São Paulo, 2002.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Com a palavra... JULIE ANDREWS

Julie Andrews
"As bibliotecas tiveram uma importância essencial em minha vida. Vivendo em uma cidade pequena como Walton-on-Thames, na Inglaterra, um vilarejo no interior, a biblioteca era o lugar mais importante de todos. Tinha a aparência de uma daquelas escolas antigas de um único ambiente, mas era o lugar onde se ia e de repente se podia acessar algo mágico. E naquele tempo ninguém tinha dinheiro para comprar todos os livros que se queria ter, como é nos dias de hoje."

- Julie Andrews, além de ser um das mais queridas e talentosas atrizes do cinema e dos musicais, ganhadora do Oscar de Melhor Atriz por "Mary Poppins" e imortalizada como a Maria de "A Noviça Rebelde", é também premiada escritora de livros infantis. Hoje, 1 de outubro, é seu aniversário.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Meu livro preferido é... DIÁRIO DE BERLIM OCUPADA

ANDREAS-FRIEDRICH, Ruth.
Diário de Berlim Ocupada (1945-1948).
(Ed. Globo)
"De repente, a paz. É assim que começa o Diário de Berlim Ocupada - 1945-1948, diário real da alemã Ruth Andreas-Friedrich sobre os primeiros anos do pós-guerra na capital alemã.

Ruth, que pertenceu a um grupo de resistência antinazista durante a guerra, emerge numa Berlim devastada, desnorteada e faminta. A euforia do fim do conflito e da derrocada do nazismo vai dando lugar gradualmente a uma ausência de futuro e ao desprezo que os vencedores reservaram ao povo alemão.

Escrito de forma coloquial, o cotidiano retratado por Ruth vai desenhando um quadro maior em que o resultado inevitável de uma incompatibilidade ideológica vai forjando duas identidades distintas na mesma cidade. E enquanto Berlim se torna um dos principais palcos da guerra fria, seus cidadãos continuam sendo mero espectadores da peça. O muro só será construído em 1961, mas a autora o antevê com uma clareza assustadora.

Mais do que isso, suas memórias vão revelando o pensamento alemão num dos piores momentos da história do país.

Além de um texto direto e sincero, talvez o maior mérito do livro seja sua temporalidade. Se fosse escrito dez anos depois, num mundo já mergulhado na Guerra Fria; ou cinquenta anos depois, num mundo iludido com o "fim da história"; talvez ele não fosse tão objetivo."

- Eduardo Farias é jornalista com Mestrado em Comunicação pela UFPE, explorador incansável de sebos e afins e um leitor voraz.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Winston e a força da ignorância

Cena de "1984" (1984), adaptação cinematográfica de Michael Radford da obra de Orwell


"It was a bright cold day in April, and the clocks were striking thirteen."

O conceito de literatura distópica surgiu para reunir textos que falam do porvir da humanidade, mas que o veem como um resultado negativo ou mesmo catastrófico do presente - em outras palavras, de forma anti-utópica. Embora o tempo seja sempre futuro, o espaço dos romances e contos distópicos é quase sempre o mesmo em que se dá a criação da obra e o foco são as mudanças sociais decorridas das tendências que o autor enxerga em seu tempo present.

Em 1984, obra-prima de George Orwell publicada em 1934 e talvez um dos livros mais influentes do século passado, o autor projeta para cinquenta anos depois de sua criação o que seria um futuro nascido do ambiente opressor que se desenhava na Europa daquela véspera da Segunda Guerra Mundial. Mas Orwell escrevia a partir de uma visão muito particular e bem embasada sua: ele fora militante comunista na sua Inglaterra natal e, desencantado com os horrores que observava, tanto nas reuniões de seu partido quanto nas grandes nações que haviam adotado o Socialismo, como a União Soviética, construiu em seu romance um mundo no qual esse sistema político havia dominado os meios de produção e o poder. A crítica ao comunismo, no entanto, transformou-se em um libelo fascinante contra toda forma de totalitarismo, já que os ditadores de qualquer matiz político acabam por usar os mesmos velhos esquemas de dominação.

"O Grande Irmão vigia você"
Acompanhamos em 1984, desde a frase inicial - talvez uma das mais sutis apresentações de um livro distópico já escritas, quase intraduzível para o português em seu impacto para os primeiros leitores -, a agonia de Winston, um operário em quem começam a brotar percepções de que aquele mundo não satisfaz plenamente sua sede de viver. Estamos na Oceania - o novo nome que a Ilha Britânica recebe depois da vitória socialista do partido único IngSoc -, em uma sociedade dividida em três distintas classes sociais: o Partido, os proles e os líderes do Partido. Winston é do Partido, o que significa dizer que teve razoável instrução, é dono de uma inteligência que lhe permite ser empregado no setor encarregado de modificar o passado nos jornais e revistas e que é, por ser do Partido, vigiado e controlado a todo instante pelas teletelas - que transmitem e coletam imagens e sons - e pela desconfiança permanente instaurada por uma cultura que privilegia a delação a qualquer suspeito de insubordinação. Nos primeiros momentos mostrados no livro, Winston tem em suas mãos um pequeno caderno que comprou nos bairros proletariados, onde os membros do Partido não devem transitar, mas onde tudo é mais liberado e permitido. Nesses bairros, frequentados em segredo por alguns integrantes do Partido, compra-se de tudo, como em um gigantesco mercado de pulgas. E é ali que Winston terá seus encontros secretos com Julia, jovem do Partido com quem vive um romance secreto e subversivo.

George Orwell
O livro de Orwell é tão rico em implicações filosóficas que se torna uma tarefa amarga escrever um texto curto sobre suas qualidades. Dele surgiram expressões que até hoje surgem nos debates mais acalorados sobre os sistemas de controle de governo - ou mesmo em programas de televisão de gosto questionável como o famoso Big Brother, que rouba seu título do nome daquele que seria, no livro, o grande líder da Oceania, referência de amor e idolatria para todos os membros do Partido, o ditador paternal que tudo vê e tudo sabe. Vem de Orwell a ideia da novilingua - uma língua usada para a dominação dos membros do Partido pela eliminação e transformação contínua das palavras cujos sentidos não interessam aos planos de poder dos líderes; ali está também a genial percepção de que, em um esquema ditatorial, as massas são mantidas em estado de alienação para darem menos preocupações aos detentores de poder - e no livro isso acontece através de máquinas criadas para gerar romances açucarados e músicas de rima fácil e tema sentimentalóide, descrições perfeitas do autor visionário para o que hoje invade as rádios e livrarias do mundo; é sua a concepção do estado de duplipensar, no qual os membros do Partido eram levados a aceitar duas ideias paradoxais ao mesmo tempo, em uma deliberada destruição de qualquer esquema lógico e racional de análise da realidade.
 

O livro é repleto de frases memoráveis e ideias que não nos permitem chamar Orwell de algo menos que visionário - como os lemas do IngSoc, obra-prima do duplipensar: Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força. Em poucas palavras, por exemplo, Orwell define a certa altura do livro as bases de qualquer ditadura:


Quem controla o passado, controla o futuro.
Quem controla o presente, controla o passado.

Um homem além de seu tempo, Orwell não usa em 1984 o mesmo tom de fábula com que critica a Revolução Russa no genial A Revolução dos Bichos. Na narrativa que nos faz acompanhar Winston até as câmaras de tortura e à "libertação" final do "mal" que lhe afligia, o texto é um assustador romance "histórico" cuja função maior na história da literatura recente é alertar-nos para a constante possibilidade de que um futuro como esse venha a existir.      


*Texto de Robertson Frizero - escritor, professor de Criação Literária e Mestre em Letras pela PUCRS.